terça-feira, 2 de dezembro de 2008

NÃO TE AMO, QUERO-TE

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

77 - SOU NÓMADA E BASTA-ME

Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.

Casimiro de Brito
Na Via do Mestre 2000

terça-feira, 4 de novembro de 2008

STRIP TEASE

Jamais eu ficaria quieto
sob o teu olhar;

que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos.

Porque sobre mim,
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.


Soares Feitosa
Salvador, madrugada alta, 5/12/1996

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

SE ME DEIXARES, EU DIGO

Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente;
E, n'este mundo de enganos,
Falla verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;
Mas, tem cuidado commigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente.

António Botto, in 'Canções'

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

NAMORADOS E AMANTES

Amantes não são namorados,
namorados namoram,
amantes amam-se!
Amantes fogem sempre,
amantes escondem-se
sem fazer alarde.
Namorados, são o dia e a noite,
amantes, são a tarde.

Namorados são avassaladores,
amantes são suaves,
mas, amam-se tanto que se magoam,
e, às vezes, sentem dores.

Namorados riem, divertem-se,
amantes, apenas se amam.
Namorados, quando estão no Central Park,
correm atrás um do outro.
Nos fins de semana na Lapa
caem sempre nas batucadas,
e se vão à praia de Camboriú, que lindo,
mergulham no mar de mãos dadas!

Amantes, beijam-se nas mãos,
amantes nunca se falam,
sentem-se, cheiram-se,
exalam...

Namorados, passeiam de bicicleta,
andam de patins no gelo.
Amantes acendem a lareira,
sentam-se no tapete,
ela cheira as mãos dele,
e, ele, o seu cabelo!
Os rostos encostam-se e,
assim, ficam por longo tempo,
as mãos apertam-se um pouco mais,
amantes não falam,
deitam-se, perdem-se,
e procuram-se por trás.

Namorados abraçam-se
olham-se, ajudam-se,
esperam-se na escola,
comem pipocas na fila do cinema,
no fim de semana, eu prefiro Búzios,
tu, Saquarema!

Namorados discutem por qualquer coisa,
amantes amam-se.
Namorados sentem ciúme,
ficam de mal, trocam de telemóvel.
Amantes esperam-se com a banheira cheia,
só não desejam é falar!

Namorados encontram-se de manhã
dirigem-se para a escola
e marcam para a noite um passeio.
Amantes encontram-se sempre de tarde
o carro a voar, a chave recebida,
mal a porta se fecha,
as bocas lambem-se,
eu, doido de amor,
tu, perdida!

Namorados, quando passeiam,
estão sempre de mãos dadas,
e, felizes, balançam os braços.
Amantes olham-se no espelho do quarto
e apertam-se nos abraços.
Namorados fazem as pazes
e prometem juras de amor,
marcam o fim de semana em Penedo,
Lumiar, Salvador.
Amantes estão sempre num quarto,
beijam-se, mordem-se, molham-se,
transpiram, não dormem,
arriscam-se ao enfarte!

O que há de mais belo na vida
namorados e amantes têm:
namorados são felizes,
amantes, também...

Ivan Siqueira
(foto: Simone Beauvoir, de © Art Shay)

domingo, 7 de setembro de 2008

NOCTURNO E ELEGIA

Se perguntar por mim, traça no solo
uma cruz de silêncio e de cinza sobre
o impuro nome que padeço.
Se perguntar por mim, diz que estou morto
e que apodreço com as formigas.
Diz-lhe que galho sou da laranjeira
e a veleta simples de uma torre.

Não lhe digas que ainda choro
acariciando o oco de sua ausência
onde sua cega estátua ficou impressa
na espera incessante de que regresse o corpo.
A carne é um laurel que canta e sofre
e eu esperei em vão sob sua sombra.
Já é tarde. Sou um peixinho mudo.

Se perguntar por mim dá-lhe estes olhos,
estas palavras grises, estes dedos;
e a gota de sangue neste lenço.
Diz-lhe que estou perdido, que virei
uma perdiz escura, um falso anel
à beira de juncos esquecidos;
diz-lhe que vou do açafrão ao lírio.

Diz-lhe que quis perpetuar seus lábios,
habitar o palácio de sua fronte.
Navegar uma noite em seus cabelos.
Aprender a cor de suas pupilas
e apagar-se em seu peito suavemente,
nocturnamente fundido, em letargia
num rumor de veias e surdina.

Agora não posso ver ainda que suplique
o corpo que vesti de meu carinho.
Tornei-me um rosado caracol,
fiquei fixo, roto, desprendido.
E se duvidais de mim, acreditai no vento,
olhai ao norte, perguntai ao céu
que vão dizer se espero ainda ou se anoiteço.

Ah! Se perguntar diz-lhe o que sabes.
As oliveiras falarão de mim um dia
quando eu for o olho da lua,
ímpar sobre a festa da noite,
adivinhando conchas da areia,
o rouxinol suspenso de um astro
e o hipnótico amor das marés.

É verdade que estou triste, mas tenho
semeado um sorriso no tomilho,
outro sorriso escondi em Saturno
e perdi o outro não sei onde.
Melhor será que espere a meia-noite
o extraviado odor dos jasmins,
e a vigília do telhado, fria.

Não me lembres seu dedicado sangue
nem que eu pus vermes e espinhos
pra morder sua amizade de nuvem e brisa.
Não sou o ogro que cuspiu em sua água
nem o que um cansado amor paga em moedas.
Não sou o que freqüenta aquela casa
presidida por uma sanguessuga!

(Ali se vai com um ramo de lírios
para que o esmague um anjo de asas turvas.)
Não sou o que trai as pombas,
as crianças, as constelações ...
Sou uma tenra voz desamparada
que sua inocência busca e solicita
com doce assobio de pastor ferido.

Sou uma árvore, a ponta de uma agulha,
um alto gesto eqüestre em equilíbrio;
a andorinha em cruz, o lubrificado
vôo da coruja, o susto de um esquilo.
Sou tudo, menos isso que desenha
sinais de lama nas paredes
dos bordéis e dos cemitérios.

Tudo, menos aquilo que se oculta
sob uma seca máscara de esparto.
Tudo, menos a carne que procura
voluptuosos anéis de serpente
cingindo em espiral viscosa e lenta.
Sou o que tu me mandes, o que inventes
para enterrar meu pranto na neblina.

Se perguntar por mim, diz-lhe que moro
na folha do acanto e na acácia.
Ou, preferindo, diz-lhe que morri.
Dá-lhe o suspiro meu, e o meu lenço;
meu fantasma na nave do espelho.
Talvez eu chore no laurel ou busque
lembranças minhas no feitio de estrela.

Emilio Ballagas - De: Sabor eterno, 1939

(Poeta cubano, nasceu em Camagüey e morreu em Habana)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Esta Tarde

Ahora quiero amar algo lejano...
Algún hombre divino
Que sea como un ave por lo dulce,
Que haya habido mujeres infinitas
Y sepa de otras tierras, y florezca
La palabra en sus labios, perfumada:
Suerte de selva virgen bajo el viento...

Y quiero amarlo ahora. Está la tarde
Blanda y tranquila como espeso musgo,
Tiembla mi boca y mis dedos finos,
Se deshacen mis trenzas poco a poco.

Siento un vago rumor... Toda la tierra
Está cantando dulcemente... Lejos
Los bosques se han cargado de corolas,
Desbordan los arroyos de sus cauces
Y las aguas se filtran en la tierra
Así como mis ojos en los ojos
Que estoy sonañdo embelesada...

Pero
Ya está bajando el sol de los montes,
Las aves se acurrucan en sus nidos,
La tarde ha de morir y él está lejos...
Lejos como este sol que para nunca
Se marcha y me abandona, con las manos
Hundidas en las trenzas, con la boca
Húmeda y temblorosa, con el alma
Sutilizada, ardida en la esperanza
De este amor infinito que me vuelve
Dulce y hermosa...

Alfonsina Storni